☽★☾ Grimório da Luna

Um blog dedicado a orientação de iniciantes e praticantes solitários da wicca. Blessed be!

Algumas verdades sobre a wicca

  A maior surpresa sobre bruxaria, para  a maioria  das  pessoas,  uma  vez  entendido  que  não  somos  "adoradores  do  diabo"  nem "instrumentos do poder do mal" (no verdadeiro estilo dos filmes de horror), é que veneramos uma  entidade  feminina,  uma  Deusa.  Também  veneramos  um  Deus.  Isto  não  surpreende ninguém.  Mas  reverenciar  a  Mãe  de  Toda  a  Vida,  nesta  cultura,  é  inesperado.  Temimplicações espirituais, emocionais e sociais.
 Historicamente, as bruxas  foram perseguidas por  sua crença em uma Deusa.  Isso era politicamente inaceitável num regime patriarcal. A veneração à Deusa teria que significar, por exemplo, que a terra, a Mãe Terra, seria de novo sagrada. Ela não deveria mais ser poluída ou explorada por qualquer razão, e se perderia uma enorme quantidade de poder ou lucro obtido por  homens  inescrupulosos. Melhor,  do  ponto de  vista  deles,  venerar  um Deus  que  é  todo mente e espírito e vive lá no alto, longe da horrível e "pecaminosa" Terra.
  Na visão  espiritual de nosso mundo moderno,  a  feminilidade há muito  tempo não  é considerada tão sacra quanto a masculinidade. A mulher, em todas as religiões patriarcais — o  cristianismo  e  o  islamismo  em  particular —  é  vista  como  aquela  que  traz  o  pecado,  a traição, a armadilha ao sexo "santo". Mais próxima da animalidade, pela menstruação e parto, e da terra. Como pode haver um deus feminino?, as pessoas indagam. As bruxas dizem que o parto é o ato criativo original, e que os seres pré-históricos adoravam tanto os deuses quanto as  deusas  (principalmente  as  deusas)  desde  tempos  imemoriais.  Isto  está  descrito  nas mitologias  mais  antigas,  e  identificado  por  inúmeras  figuras  e  esculturas  de  deusas,
descobertas em sítios arqueológicos, no mundo inteiro.
  Hoje em dia, algumas bruxas, rebelando-se contra a cruel supressão da Deusa, chegam a dizer que somente Ela deve ser venerada. Uma compreensível, mas triste reação. Entretanto, o Pai de Toda a Vida, o Deus, precisa também de reconhecimento. Ele existe, e Sua omissão seria  tão  errada  quanto  a  destruição  da  crença  na  Deusa Mãe.  E  nesta  obra  não  faremos distinções  entre  o  masculino  e  o  feminino.  Quando  nos  referirmos  a  bruxas,  estaremos incluindo  os  bruxos.  E  vice-versa.  A  verdadeira  meta  é  a  reconciliação  dos  opostos.  A amargura, o ódio e o ressentimento entre os sexos são antigos como a própria história, mas a bruxaria  é  a  única  religião  que  possui  como  alvo  a  cura  destas  feridas.  Lamentavelmente, existem no mundo pessoas, de ambos os sexos que não desejam a reconciliação ou não crêem nessa possibilidade. A elas, por elas, não falo. Falarei a vocês dois e talvez a outras pessoas.Afirmo que a bruxaria, pelo menos potencialmente, é uma religião purificadora. De  onde  ela  recebe  suas  credenciais? Qual  é  a  sua  história? A  feitiçaria  provém  do paganismo. Mais especificamente, é um ramo do paganismo com raízes no passado neolítico. Evoluiu  e  se manteve  durante milhares  de  anos  de  perseguição. No  tempo  presente,  é  um sistema de crenças e práticas encantatórias, dedicado à restauração da harmonia perdida entre a humanidade, e aos aspectos sutis,  transracionais da vida e seus mistérios. Acreditamos que será também a restauração da harmonia perdida entre o ser e a Mãe Terra. Renascendo agora, é, contudo, uma forma da velha religião. Sabemos hoje por que foi classificada como má. Pois tal calúnia é a prática comum, sempre que uma nova religião substitui a antiga. As feiticeirasnão  são  necessariamente  más.  Elas  são  simplesmente  seguidoras  de  uma  religião  anterior  aocristianismo.
  O  segundo  fato  surpreendente:  nem  sempre  as  bruxas  são  velhas,  embora muitas  o  sejam.
Nenhuma  delas  é  mais  propensa  às  verrugas  do  que  algum  outro  membro  da  população  (embora
tenham maior  facilidade em afastá-las por meio de  feitiços), nem são  reconhecíveis. Não usam altos
chapéus negros, e podem ser de qualquer idade ou sexo. Os homens também se chamam de feiticeiros
ou  bruxos.  Alguns  trabalham  em  conjunto,  ou  sozinhos,  e  outros,  como  eu,  junto  a  um  parceiro
mágico. Mas não se adivinha quem, dentre seus vizinhos, poderia ser um bruxo.Sim,  praticam  a magia.  Não  para  rogar  pragas  ou  prejudicar, mas  para  ajudar  e  curar.  Sefunciona? A magia  alcança  algum  propósito? Terceiro  fato  surpreendente:  sim. Mas  precisa  de  umaprendizado, como qualquer outro estudo.É  verdade,  sim,  que  alguns  feiticeiros  cumprem  seus  ritos  nus.  Mas  as  bruxas  solitáriaspraticam sua magia desta maneira, por acreditarem que seus corpos são sagrados e sentirem prazer naliberdade e na beleza da nudez. Além disso, a  tradição diz que a magia  funciona melhor assim, pois roupas impedem o fluir da energia etérica da feitiçaria. No verão, claro, ou diante da lareira acesa. Os
arrepios não nos levariam a efeitos mágicos.
Bem, vocês perguntam, após a questão da nudez, e o deus com chifres e cauda bipartida? Que
tal o Velho Cornífero? Você realmente adora o Diabo? Não há fogo sem fumaça.
O velho Cornífero? Sim. O Diabo, princípio do mal? Não. O Deus de Chifres, para as bruxas,
é o companheiro masculino da Deusa Tripla. Ele é dinâmico, a força vital, aspecto masculino de toda a
natureza. Nós  o  veneramos  porque  veneramos  a  vida. Ele  possui  chifres  e  cauda,  que  denotam  seu conhecimento  instintivo  e  animal,  sua  sapiência  natural.  Este  Deus  é  parte  bicho  e  parte  homem,
mescla da força vital e perícia xamânica. O Deus Cornífero, como a Deusa, é sexual, terreno,
apaixonado e sábio. Cruel e mau ele não é. Entre os dois, a Mãe Deusa e seu companheiro, se
constrói o mundo. Eles o  construíram de  amor  e desejo. Portanto,  a  sua  sexualidade  é uma
força  vital  sagrada,  verdadeira  experiência  espiritual.  Potencialmente,  a mais  espiritual  das
experiências.
Talvez  este  seja  o  fato  mais  surpreendente  de  todos  a  respeito  da  feitiçaria.  Não
deveria  ser. Mas  preciso  admitir  que  neste mundo,  como  ele  é  atualmente,  a maioria  das
pessoas encontra dificuldades em  relacionar  sexo com espiritualidade. É contra  tudo que as
religiões patriarcais ensinaram sobre o sexo, como vergonhoso e sujo (no máximo necessário
para a continuidade da espécie).  Eu  e  minhas
companheiras bruxas cansamos da falsa imagem de que usamos altos chapéus negros, de que
cozinhamos  revoltantes  sopas  com  asas dos morcegos, que  rondam os pátios das  igrejas na
calada da noite, colecionando unhas de defuntos. Não faço isso. Não fazemos.
TRECHO DO LIVRO - A BRUXA SOLITÁRIA DE RAE BETH

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